O texto a seguir foi retirado do Blog de Gabriel Passajou. Leia. Ao final, farei algumas considerações.
Locução: Menos é mais.
Abril 1, 2009
Locutor: – É isso aí, gente! Agora são 10 horas e 30 minutinhos, manhã de sol de quarta-feira. E agora vamos bater aquele papo gostoso. Alô?
Ouvinte: – Alô?
Locutor: – Quem está falando?
Ouvinte: – Maria do Socorro.
Locutor: – Olá, Maria do Socorro, e você está falando de onde?
Ouvinte: – Do centro.
Locutor: – Do centro, é? E você está no trabalho?
Ouvinte: – Sim. Sou secretária.
Locutor: – Secretária?
Ouvinte: – Isso, da RM Contabilidade.
Locutor: – Beleza então, Maria do Socorro, então eu mando um abraço à todos aí da RM Contabilidade, tá?
Ouvinte: – Obrigada.
Locutor: – E vai pedir alguma música, Maria do Socorro?
Ouvinte: – Vou sim, quero ouvir a nova do Daniel.
Locutor:- A nova do Daniel? “Eu quero amar você”?
Ouvinte: – Isso mesmo.
Locutor: – Que maravilha, Maria. E vai mandar a música do Daniel pra quem?
Ouvinte: – Para o meu namorado, bla, bla, bla, bla…
Locutor: – Taí a sua música, e continue sempre na sintonia, tá bom?
Ouvinte: – OK.
Locutor: – Beleza. E agora vamos de Daniel – Eu quero amar você! Um bom diaaaaaa!
Quantas vezes você presenciou o diálogo acima? Eu perdi a conta! Trata-se uma uma quilométrica participação de ouvinte em que todos saem perdendo. Pelos meus cálculos, a conversa durou mais de 70 segundos. Vamos analisar todo o diálogo frase a frase.
Locutor: – É isso aí, gente! Agora são 10 horas e 30 minutinhos, manhã de sol de quarta-feira. E agora vamos bater aquele papo gostoso. Alô?
- “É isso aí, gente?” O que isso significa? NADA! Isso chama-se MULETA. É um vício que deve ser eliminado ou pelo menos reduzido ao mínimo. “Beleza?”,”Pois é!”, “Taí” entre outros se encaixam nessa categoria. Isso enfeia a sua locução e não acrescenta nenhuma informação útil ao seu ouvinte.
- 10 horas e 30 MINUTINHOS ou 10 horas MAIS 30 minutos está errado! Não é assim que você responde às horas à alguem, certo? É 10 e 30 ou 10 horas e 30 minutos. Acabou. A locução deve ser algo natural, então diga as horas como todos o fazem no dia a dia.
- “Manhã de sol de quarta-feira”? Locutor não é meteorologista. Pode fazer sol na rua da rádio e estar chovendo em um barro distante. Lembre-se que você fala com todos os ouvintes.
- E o “vamos bater um papo gostoso”? Existe algo pior do que isso? A frase, além de desnecessária, incita as pessoas a mudar de estação. Ouvinte quer ouvir música, não perder tempo com “papo gostoso”.
Ouvinte: – Alô?
Locutor: – Quem está falando?
Ouvinte: – Maria do Socorro.
Locutor: – Olá, Maria do Socorro, e você está falando de onde?
Ouvinte: – Do centro.
- Aqui notamos a completa falta de informação do locutor à respeito do ouvinte. Muitos radialistas abrem a participação do ouvinte sem ter a mínima idéia de quem está do outro lado. Infelizmente é praticamente uma regra. Vejam a perda de tempo: 5 intervenções só para saber que a Maria do Socorro está no centro da cidade!
Locutor: – Do centro, é? E você está no trabalho?
Ouvinte: – Sim. Sou secretária.
Locutor: – Secretária?
- Mais um vício de locução. O famoso ECO.
“Estou no centro”. – “No centro, é?”.
” Sou secretária”. -” Secretária?”.
Porque repetir? É desagradável conversar com alguém que repete sempre a sua última palavra, não acha? Imagine ouvir no rádio! Ninguém precisa saber uma informação duas vezes, ainda mais se for irrelevante.
Ouvinte: – Isso, da RM Contabilidade.
Locutor: – Beleza então, Maria do Socorro, então eu mando um abraço à todos aí da RM Contabilidade, tá?
Ouvinte: – Obrigada.
De vez em quando isso acontece. O ouvinte diz aonde trabalha. Péssimo. Primeiro porque dá a impressão que a secretária da RM Contabilidade não trabalha, fica ligando para a rádio pedindo música. É ruim para a RM e para a ouvinte. Segundo, se a rádio tiver um anunciante da área de contabilidade vai ficar “super feliz” com a publicidade gratuita da sua concorrente. É ruim para a sua rádio. Terceiro, a emissora não ganhou um centavo com a divulgação. É ruim para as vendas. E quarto, o locutor ainda corre o risco de ficar com fama de jabazeiro.“Vai ver que ele está ganhando um por fora!” Já pensou nisso? É ruim para a credibilidade do locutor.
Locutor: – E vai pedir alguma música, Maria do Socorro?
Ouvinte: – Vou sim, quero ouvir a nova do Daniel.
Locutor:- A nova do Daniel? “Eu quero amar você”?
Ouvinte: – Isso mesmo.
- Se a ouvinte vai pedir um música? Não, ela ligou para a rádio para encomendar um pizza! Não dá vontade de dizer isso?
- “A nova do Daniel?” Olha o locutor fazendo eco de novo.
Locutor: – Que maravilha, Maria. E vai mandar a música do Daniel pra quem?
Ouvinte: – Para o meu namorado, bla, bla, bla, bla…
Locutor: – Taí a sua música, e continue sempre na sintonia, tá bom?
Ouvinte: – OK.
Locutor: – Beleza. E agora vamos de Daniel – Eu quero amar você! Um bom diaaaaaa!
- “Que maravilha” e “Beleza” = Muleta.
- “Taí a sua música . Continue na sintonia, tá bom?” Outra frase descenessária.
- E para concluir: Vocês sabem qual o nome da rádio? Não é impressionante? Um diálogo de mais de um minuto e não sabemos qual emissora estamos. Sim, isso é muito comum.
Resultado: Participações longas limitam o número de ouvintes no ar. Apenas 3 intervenções como essa em uma hora, além de chatas, substituem uma música inteira.
Porque não fazer assim?
Locutor: – Rádio 108 FM, Sucesso em primeiro lugar! São 10 e 30, e agora eu converso com a Maria do Socorro que está no centro da cidade. Oi, Maria, bom dia!
Ouvinte: – Bom dia!
Locutor: – Que música você quer ouvir?
Ouvinte: – Daniel – Eu quero amar você!
Locutor: – E oferece para quem?
Ouvinte: – Meu namorado, bla, bla, bla, bla…
Depois do oferecimento? Vinheta (mais uma vez localiza o ouvinte na rádio que ele ouve) e música. Só. É rápido, dinâmico e não cansa o ouvinte. Sabe quanto tempo levou? 15 a 20 segundos! Em vez de 3 enormes participações em uma hora, faça 6 ou 7!
(Gabriel Passajou).
Lendo o Gabriel, é fácil perceber a intenção do autor: objetividade. É isso que Passajou sugere nesse texto. Até ai, perfeito.
Gabriel tem razão quando tenta mostrar que o profissional do microfone não dever perder tempo com coisas que não agregam valor ao seu programa. Afinal, tempo também é um instrumento de trabalho do locutor. Não se pode perdê-lo.
Mas entendo que a coisa não é tão simples assim.
Que fique bem claro: eu não sou a favor do uso exacerbado de “muletas”, mas, em rádio, é preciso levar em consideração alguns critérios para tratar de objetividade.
Se a emissora for voltada para o ‘popular’, “muita” objetividade pode ser ainda mais perigoso. Em um perfil de rádio onde quem ouve busca (mesmo que inconscientemente) companhia, o “excesso” de objetividade pode tornar o locutor antipático e causar distanciamento do ouvinte. E isso é muito perigoso.
É preciso lembrar que o rádio, especialmente o FM, é voltado para o entretenimento. E é, antes de tudo, companhia. Até que ponto a objetividade “ajudaria” na relação entre comunicador e ouvinte?
No rádio, existe uma linha tênue entre objetividade e companhia. Nesse sentido, o comunicador que se dar bem é aquele que consegue enxergar e “caminhar” sobre essa linha, sem sair muito do eixo, causando companhia ao ouvinte com a dose certa de objetividade.
Naturalmente, o tema é polêmico e pode gerar muitas opiniões.
Gostaria de saber a sua.