Se algum dia o Brasil precisasse de um episódio para resumir o nível de deterioração de seu debate político, o caso envolvendo Lindbergh Farias e Alfredo Gaspar seria um forte candidato. Em 27 de março, em meio à sessão final da CPMI do INSS, o petista fez uma acusação da maior gravidade possível: disse que Gaspar havia cometido estupro de vulnerável contra uma adolescente de 13 anos.
Não foi um deslize de bastidor, nem um comentário isolado — foi uma denúncia formal, levada à Polícia Federal, amplificada em coletivas de imprensa e repetida por semanas, inclusive com acusações adicionais de pedofilia, trabalho escravo e tentativa de suborno de R$ 400 mil. "Não temos medo", disse Lindbergh à época, desafiando Gaspar a apresentar material genético para provar sua inocência.
Passados cinco meses, eis o desfecho digno de um enredo torto: horas depois de Gaspar ser anunciado vice na chapa de Flávio Bolsonaro, o próprio Lindbergh procurou o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, para negociar uma espécie de armistício.
Segundo revelou o colunista Gustavo Negreiros, o petista disse que não pretendia mais "explorar politicamente" o assunto e sinalizou disposição de divulgar uma nota pública amenizando o tom — em troca, evidentemente, de que Gaspar retirasse os processos por calúnia e difamação movidos contra ele. Gaspar, por sua vez, recusou qualquer tipo de acordo.
O contraste é de doer os olhos de quem ainda acredita em coerência na política. Se a acusação era mesmo grave — e trata-se de um crime sem prescrição moral possível, ainda mais quando envolve suposta vítima menor de idade —, não existe cenário em que negociar uma "pacificação" faça sentido.
Ou o crime aconteceu e precisa ser apurado e punido até o fim, sem meio-termo, sem toma-lá-dá-cá. Ou não aconteceu, e nesse caso a atitude mais correta jamais seria buscar um acordo de bastidores, mas sim reconhecer publicamente o erro e assumir as consequências de ter feito uma acusação levada tão a fundo.
O que ocorreu, no entanto, foi nada disso: foi political timing. A acusação nasceu no auge do embate da CPMI, ganhou força quando era conveniente desgastar o relator do inquérito, e agora, com Gaspar guindado à condição de vice presidenciável — e, portanto, com poder de fogo jurídico e político para revidar —, o mesmo deputado que dizia "não ter medo" busca uma saída discreta pela porta dos fundos. É a lógica do boomerang: a arma que se atira contra o adversário, quando ele ganha força, volta para acertar quem a lançou.
Esse vaivém deveria causar indignação em qualquer sociedade minimamente republicana. No Brasil, infelizmente, tornou-se apenas mais um capítulo do noticiário político — tratado com naturalidade, quase como regra do jogo. Acusações graves são feitas sem pudor quando servem a um propósito imediato, e recuadas sem constrangimento quando o cálculo político muda de sinal.
Enquanto isso, a verdade sobre o que realmente aconteceu — se houve crime, se houve calúnia, se há vítima real por trás de tudo isso — continua em segundo plano, tratada como moeda de troca entre parlamentares, e não como o que deveria ser: uma questão de Justiça, seriedade e responsabilidade civil e penal.