Logo 96FM

som+conteúdo

Banner_SALeLUZ 2026_1366x244px.png

Ênio Sinedino


O alvo comum

Geral-Como-definir-um-pblico-alvo-estratgico-9110.webp

Terminadas as convenções do último fim de semana — a campanha começa para valer. E, como quase sempre acontece, o mapa da guerra fica mais claro. Basta observar quem mira em quem. Neste início de corrida ao governo do RN, há uma convergência que dispensa comunicado conjunto: duas das três maiores candidaturas descobriram, cada uma por seu caminho, que têm um inimigo em comum. O nome dele é Allyson Bezerra.

O ex-prefeito de Mossoró lidera  na maioria dos institutos de pesquisa — É a posição mais confortável do tabuleiro e, justamente por isso, a mais perigosa. Quem lidera cedo vira alvo cedo.

A lógica dos adversários é menos ideológica do que aritmética. Tanto Álvaro Dias quanto Cadu Xavier chegaram, cada um, à mesma conclusão: o pior cenário de segundo turno para os dois é enfrentar Allyson. E a conta explica o incômodo. Num eventual Allyson x Álvaro, parte do voto petista, órfão e movido a antipatia, tende a escorrer para o adversário menos à direita — e Allyson herda esse fluxo. Num Allyson x Cadu, o movimento se inverte: é o voto de direita que migra, quase por gravidade, para o candidato do União Brasil. Nos dois roteiros, Allyson cresce no segundo turno.

Daí a estratégia, que de sutil não tem nada: apostar na polarização para desidratar o ex-prefeito de Mossoró.

Não que os outros dois cheguem desarmados.

Álvaro Dias exibe o palanque mais vistoso. Ao seu lado estão Paulinho Freire, prefeito de Natal, articulador de mão cheia — um ninja da política, do tipo que aparece pouco e decide muito; Styvenson Valentim, que lidera as intenções de voto para o Senado, Rogério Marinho, cacique nacional do PL e Babá Pereira, vice na chapa e ponte confiável com os prefeitos do interior. É estrutura de sobra. Falta saber se estrutura, sozinha, ganha eleição — a história recente do Rio Grande do Norte sugere que nem sempre.

Cadu Xavier aposta noutra moeda: a força de Lula, cuja aprovação no estado beira os 65%, somada à militância petista, que é pequena no número e enorme na disposição. O problema do petista atende por um nome que a campanha preferiria não pronunciar em voz alta: Fátima Bezerra. A governadora é âncora e lastro ao mesmo tempo, e sua rejeição, beirando o inimaginável, é o tipo de peso que se carrega no colo durante toda a travessia.

E Allyson? Segue com a vantagem de quem lidera. Terá a maior fatia do horário eleitoral — perto de 60%, cortesia de uma coligação de oito partidos —, tem o apoio de sete prefeitos das dez principais cidades do estado e uma comunicação que fala a língua do eleitor sem tradução simultânea. Contra ele tem uma artilharia de desconstrução pesada que vai se voltar durante a campanha com um único objetivo: tira-lo do segundo turno. Será que ele resiste?

As três candidaturas têm chances reais, e é isso que torna o roteiro interessante. Mas há um personagem que nenhuma das estratégias controla e que todas fingem já ter no bolso: o eleitor. Por ora, ele assiste a tudo com uma desconfiança saudável — avesso aos cenários montados em gabinete, às pesquisas que se contradizem de uma semana para a outra e às narrativas que cada campanha tenta vender como fato consumado.

Os candidatos podem rabiscar no papel o primeiro e segundo turno que preferirem. Na urna, quem desenha é ele. E, a despeito de toda a engenharia de polarização, de todo o tempo de rádio e TV, de todo o cálculo de transferencia de voto, será o eleitor — como sempre foi — a dar a única palavra que de fato importa.

 

 

 

Deixe o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado