A troca de informações entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado pode trazer desdobramentos relevantes para a forma como facções brasileiras são tratadas no cenário internacional.
A noticia é de MARIANA SARAIVA. Na sexta-feira (10), o governo federal anunciou, por meio do Ministério da Fazenda, um acordo de cooperação mútua entre a Receita Federal e a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA para enfrentar o tráfico internacional de armas e drogas.
A iniciativa acende um alerta porque ocorre em meio a discussões, nos Estados Unidos, sobre a possível classificação de PCC e CV como grupos terroristas.
Segundo o internacionalista João Alfredo Nyegray, a cooperação tende a alterar a percepção norte-americana, menos por mudar a natureza dos grupos e mais por fortalecer as evidências sobre sua atuação transnacional.
Nyegray lembra que, em maio de 2025, autoridades brasileiras reconheceram que o Departamento de Estado dos EUA pressionou o Brasil a classificar essas facções como terroristas, citando a presença delas em território americano e vínculos com crimes transnacionais. Para ele, o novo acordo fortalece essa possibilidade.
O especialista aponta ainda uma possível contradição na posição do governo brasileiro. “Ao rejeitar a classificação como terrorismo, mas aprofundar a integração de inteligência com Washington, o Brasil ajuda a produzir a base informacional que pode sustentar essa narrativa”, completa.
Na mesma linha, o jurista Murilo Borsio Bataglia avalia que a iniciativa reforça a percepção internacional de que essas organizações extrapolam o território nacional. “O Brasil passa a influenciar, ainda que de forma indireta, a maneira como essas organizações são compreendidas globalmente”, afirma.
Um dos pontos centrais do acordo é o compartilhamento de informações em tempo real, considerado decisivo nesse tipo de análise.
Segundo Nyegray, esse mecanismo permite conectar eventos antes isolados, como envio de peças de armas, remessas suspeitas e fluxos financeiros, a uma mesma estrutura criminosa. “É esse salto, da ocorrência isolada para a atribuição estruturada, que pesa em processos de sanção e designação”, afirma.
Ele alerta, porém, que esse tipo de cooperação vai além do campo técnico. “Em Washington, informações compartilhadas podem alimentar decisões de política externa, como sanções e reclassificações estratégicas”, diz.
Murilo Borsio também destaca os desafios envolvidos. Para ele, o intercâmbio de dados exige equilíbrio entre cooperação internacional e soberania nacional. “Trata-se de um processo que envolve informações sensíveis e depende de confiança mútua entre os países”, afirma.