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Danilo Sá


Governo que prometeu picanha entrega inflação no prato

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A política brasileira apresentou um talento curioso: transformar churrasco em metáfora eleitoral. Em 2022, a picanha virou símbolo de um país que voltaria a caber no bolso do trabalhador. Era mais do que carne — era promessa de dignidade, consumo e alívio. Passados os discursos, o que chega à mesa do brasileiro está bem menos suculento do que o marketing sugeria. A mentira acabou sendo exposta na mesa vazia do trabalhador. 

O problema é que promessa não passa no caixa. O carrinho de supermercado virou o novo termômetro político do país. E ali não tem narrativa que sobreviva muito tempo. O eleitor pode até não dominar termos como “arcabouço fiscal” ou “política monetária”, mas sabe exatamente quanto pagava no café há doze meses — e quanto está pagando agora. E essa conta, simples e direta, costuma ser implacável.

O governo Lula apostou na memória de um período em que o consumo crescia e o poder de compra parecia mais robusto, mesmo que sustentado sob um falso crescimento econômico que viria a ruir como um castelo de cartas anos depois. Mas a realidade atual é outra: inflação pressionando alimentos, crédito mais caro e uma sensação difusa de que o dinheiro perdeu força. Não é uma crise explosiva, daquelas que derrubam governos da noite para o dia — é algo mais silencioso e, por isso mesmo, mais perigoso: o desgaste contínuo.

E há um detalhe que Brasília às vezes subestima: comida é um tema emocional. Quando o preço da carne sobe, não é só economia — é frustração. Quando o gás pesa no orçamento, não é só estatística — é desconforto real. E quando a mesa aperta, o discurso também começa a perder espaço.

Lula, em seus dois primeiros mandatos, conquistou a imagem de um presidente forte na construção de símbolos. A “mesa cheia” talvez seja o mais poderoso deles. Mas símbolo tem prazo de validade quando não encontra respaldo na vida prática. Se o brasileiro continuar indo ao mercado com expectativa de picanha e voltando com substituição, o desgaste deixa de ser técnico e passa a ser político — e político, como se sabe, cobra com juros altos.

 

No fim das contas, o eleitor pode até perdoar erros, corrupção, incompetência. Mas dificilmente ignora o básico: aquilo que falta no prato.

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