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Ciro Marques


"Chocada": Erika Hilton detona PSOL e acusa partido de privilegiar brancos e cis em detrimento de lideranças negras e trans

Erika Hilton | Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi às redes sociais nesta semana com uma bomba política: em nota contundente, a parlamentar acusou a direção nacional do seu próprio partido de rasgar acordos, praticar privilégio racial e de gênero na distribuição de recursos eleitorais e colocar em risco sua integridade física ao ignorar as necessidades de segurança de uma candidata negra e travesti que percorre o maior estado do país. As palavras escolhidas por ela não deixam margem para interpretação: "simplesmente chocada e decepcionada".

O estopim da crise é a distribuição de recursos para as eleições de 2026. Hilton afirma que o PSOL descumpriu acordos firmados com ela e outras lideranças que optaram por permanecer no partido justamente para ajudá-lo a superar a cláusula de barreira. Segundo a deputada, enquanto ela, uma das parlamentares mais votadas da esquerda brasileira e protagonista do movimento pelo fim da escala 6x1, teria a mesma prioridade de recursos que Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede em sua primeira candidatura, a recém-chegada Manuela D'Ávila teria previsão de receber mais do que o dobro do que Hilton. "Isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo", disparou.

A parlamentar foi ainda mais longe ao denunciar o desmonte, sob comando da presidenta nacional Paula Coradi, da política nacional de inclusão do partido, que garantia repasses com ajustes por gênero, raça e para pessoas com deficiência. A medida foi adotada, segundo Hilton, exatamente no momento em que o Tribunal Superior Eleitoral reconhece a importância histórica dessas políticas. Ela classifica o recuo como "um retrocesso inaceitável" e aponta que o problema não se limita à sua candidatura: lideranças como Renata Souza e Rick Azzevedo, no Rio de Janeiro, e Carlos Giannazi, em São Paulo, sofreriam do mesmo tratamento. Hilton lembra que o PSOL subestimou Azzevedo na eleição anterior, ele foi às ruas por conta própria e se tornou o mais votado, e que o partido "está prestes a repetir exatamente o mesmo erro com ele".

O tom da nota é de ultimato. Erika Hilton deixa claro que permaneceu no PSOL por responsabilidade política, reeleger Lula e fortalecer a bancada de esquerda, mas que essa lealdade tem um limite: o cumprimento dos acordos. "Exigimos que a direção cumpra a sua palavra", escreveu, usando o plural para deixar evidente que não fala sozinha, mas em nome de um conjunto de lideranças que se sentem asfixiadas por uma estrutura partidária que, na avaliação dela, "só pensa em si mesma".

A crise expõe uma contradição profunda dentro do PSOL: um partido que se posiciona como vanguarda das pautas de raça, gênero e diversidade, mas que, segundo sua própria parlamentar mais proeminente, reproduz internamente exatamente as hierarquias que diz combater. A um ano das eleições, a briga não é apenas sobre dinheiro de campanha, é sobre quem, de fato, manda no partido e quais corpos o PSOL está disposto a proteger quando o poder está em jogo.

Leia a nota de Erika Hilton na íntegra:

"Simplesmente chocada e decepcionada.

Pra mim, vocês sabem, a política real se faz nas ruas, nas redes, com transparência, papo reto e propósito. Não se faz escondendo os problemas debaixo do tapete ou com tentativas de sabotagem.

Eu e muitas lideranças decidimos ficar no @PSOL50 para ajudar o partido a superar a cláusula de barreira, porque nossa responsabilidade nestas eleições é gigante: dar nosso melhor, tudo de nós, para reeleger o presidente Lula e garantir uma bancada de esquerda mais forte, maior, para sustentar o governo e disputar a sociedade. Mas, para isso, o PSOL precisa cumprir os acordos que fez conosco. E não está cumprindo. Está rasgando nossos combinados e praticamente nos inviabilizando.

Tenho um orgulho imenso de ter ajudado a levar a luta pelo fim da escala 6x1 para o Brasil inteiro. As ruas estão do nosso lado. Mas fazer campanha no nosso país não é igual para todos. Sou uma deputada negra e travesti. Para viajar São Paulo, maior estado do país, puxando votos, preciso de uma logística imensa e de um esquema de segurança fortíssimo. Nossos corpos correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar, com o risco de inviabilizar nossa pré candidatura à reeleição, rebaixar o máximo potencial dos nossos votos… e colocar em risco nossa integridade física.

É um absurdo que a direção partidária feche os olhos para essa realidade. Hoje, Juliano Medeiros @julianopsol, presidente da Federação PSOL-Rede, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. @ManuelaDavila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro. Respeito a trajetória deles e adoraria vê-los eleitos, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios… A inteligência política passou longe. É uma tentativa de asfixiar quem está na linha de frente em detrimento de um perfil de pré-candidaturas bem específico, de grupos que só pensam em si mesmos e estão, mais uma vez, arriscando a viabilidade do PSOL.

Tanto é assim que, comandado por @PaulaCoradi, presidenta nacional, o PSOL simplesmente desmontou a sua política nacional de inclusão que garantia repasses nacionais justos com ajustes por gênero, raça e para pessoas com deficiência (PCD), exatamente no momento em que o próprio Tribunal Eleitoral reconhece a importância histórica e a necessidade dessa política. É um retrocesso inaceitável.

E não é só comigo. No Rio de Janeiro, lideranças gigantes e populares como @RenataSouzaRii e @RickAzzevedo sofrem do mesmo mal. Igualmente @CarlosGiannazi em SP. O partido ignorou e subestimou o Rick na última eleição, ele foi para a rua, foi o mais votado, enquanto o PSOL encolheu, em grande parte pela má distribuição dos seus recursos sob critério que são políticos. E agora o PSOL está prestes a repetir exatamente o mesmo erro com ele!

Ninguém quer tirar o básico ou negar importância de quem está nas suas primeiras campanhas. O que não podemos aceitar é a falta de transparência e o suicídio político de sufocar quem tem a força popular para garantir a sobrevivência do partido. Nós ficamos no PSOL para superar a cláusula de barreira e eleger bancadas fortes. Agora, exigimos que a direção cumpra a sua palavra."

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