Mesmo representando a maior parcela da população brasileira (51,5%) as mulheres representam minoria nos cargos de poder e também no debate político. No Congresso, são menos de 20% do total de parlamentares; nas ruas, a parcela da população que menos se identifica com os partidos políticos vigentes.
A noticia é de DEBORA SOBREIRA. A pesquisa Ipsos-Ipec realizada em março deste ano revelou que 32% dos brasileiros não se sentem representados por nenhuma sigla partidária, o que representa um terço da população. Deste total, 37% das respondentes são mulheres.
O levantamento Ipsos-Ipec revelou que, atualmente, PT e PL lideram tanto os índices de preferência quanto de rejeição: a sigla do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera como favorita, representando 27% dos entrevistados, mas também a mais rejeitada, com 37% de opositores. O PL vem em segundo, com 19%, e enfrenta menor rejeição, também de 19%.
Doutora em Ciência Política, especialista em Direito Eleitoral e professora do IDP, Marcela Machado encontra nesses dados o exemplo mais didático sobre a lacuna do voto feminino:
“Pela pesquisa, o PL enfrenta uma rejeição menor do que a rejeição ao PT, mas isso não tem sido suficiente para converter esse espaço em preferência majoritária para mulheres sem partido”, afirma. “Os dois campos operam pela lógica de transformar a rejeição ao outro em apoio próprio, mas a pesquisa demonstra que uma parte relevante do eleitorado feminino não comprou essas narrativas.”
A cientista política acredita em um fenômeno de barreira estrutural, em que o sistema partidário brasileiro ainda se apresenta pouco aberto às experiências e demandas femininas. No caso das mulheres, defende que o distanciamento é mais acentuado pela dificuldade das siglas em traduzir suas agendas em questões concretas.
“O primeiro ponto é o acesso das mulheres à arena política. Como essas mulheres vão se interessar por determinados partidos se elas, na maioria dos casos, nem conseguem acessar a arena política?”, é a questão norteadora para a cientista política da BMJ Consultores Associados, Letícia Mendes.
“As mulheres definem as eleições; são a maioria do eleitorado brasileiro e os partidos têm se utilizado disso como estratégia. Vejo que é mais recente a instrumentalização desse público pelos partidos, de uma forma até mais estratégica em candidaturas, especialmente em cargos do Executivo”, afirma.
Para ela, mesmo quando a mulher chega a ter acesso ao funcionamento dos partidos, a comunicação do programa político-partidário muitas vezes falha em criar identificação prática com as crenças dos diferentes perfis de eleitoras, e que a disputa, agora, se encontra nos canais: “A esquerda encontra um pouco mais de dificuldade em capitanear o voto feminino, muito por conta de que os valores conservadores, aposta da direita.”