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Ênio Sinedino


Editorial do Estadão: Orgulhosa sem-vergonhice

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É espantosa a forma como próceres da política vêm reagindo às investigações da Polícia Federal (PF) que os implicam no caso Master. Reina a absoluta falta de compunção. É como se em Brasília a honestidade tivesse deixado de ser um valor a ser cultivado até no campo das aparências.

Para começar, o relatório da PF tornado público há poucos dias por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, expôs com ainda mais riqueza de detalhes uma relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que, se confirmada em todos os seus contornos, materializa a venda de um mandato parlamentar. Nada menos. Segundo os investigadores, Vorcaro bancou uma frenética vida de luxos ao redor do mundo para Ciro num “mutualismo ilícito” que misturou a defesa dos interesses privados do banqueiro e o exercício do múnus público. Ciro segue impassível diante desses achados.

Por sua vez, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), declarou não ver problema algum, ora vejam, em ter sua hospedagem de luxo na capital portuguesa custeada por Vorcaro quando de sua participação no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Em que lugar decente do mundo uma imoralidade dessas pode ser tratada como aceitável? Em troca de que o presidente de uma casa legislativa aceita favores de um empresário – principalmente de alguém como Vorcaro – e trata isso como se fosse prática trivial? É esse o grau de desorientação da bússola moral na Praça dos Três Poderes?

Recorde-se, ainda, que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, foi outro que tratou como reles negociação privada, no fim do ano passado, a cobrança de milhões de dólares feita por ele a Vorcaro – à época já tido e havido como o responsável pelo maior crime financeiro da história do País – para, supostamente, financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nesse inventário de descalabros, não se pode deixar de mencionar o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alcançado por nova fase da Operação Compliance Zero em razão de seu suposto envolvimento com o caso Master. Wagner é investigado por ter sido agraciado com um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador em troca de contrapartidas legislativas de interesse do banco. Sua explicação para o negócio é um insulto à inteligência alheia. Wagner afirmou que pediu a um amigo, o investidor Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que comprasse o imóvel em seu lugar enquanto ele providenciava recursos para recomprá-lo, inclusive com a venda do apartamento de sua filha.

É o caso de relembrar que a política republicana sustenta-se sobre um primado elementar: um mandatário tem o dever de impedir que interesses privados conspurquem sua independência. E isso não se limita ao cumprimento da lei, de resto uma obviedade. Há certas condutas que até podem escapar aos limites estritos dos textos legais, mas, ainda assim, são rigorosamente incompatíveis com a dignidade do mandato eletivo.

Desde Cícero, o trato da res publica pressupõe que aqueles investidos de poder público o exerçam em benefício da coletividade. Mas nem é preciso voltar tanto. Montesquieu e os federalistas americanos conceberam robustos sistemas de freios e contrapesos, vigentes no mundo civilizado até hoje, porque compreenderam que o poder, quando dissociado da virtude, corrompe. Aqui, a Constituição de 1988 não fez diferente ao estabelecer como princípios da administração pública a probidade, a moralidade e a impessoalidade.

Em tese, hospedar-se à custa de um investigado pode não ser crime, mas é moralmente inaceitável para quem exerce cargo público. Receber emendas legislativas prontas das mãos de um banqueiro pode, também em tese, não configurar corrupção na acepção estrita do Código Penal, mas desfigura a essência do mandato parlamentar. Ainda em tese, Vorcaro pode ser só um mecenas, fã da história pessoal de Bolsonaro. Ou, ainda, um generoso corretor imobiliário. Mas a distinção entre ilegal e imoral, aqui, não é sutil, é a base sobre a qual repousa a confiança nas instituições deste país. O que se vê, porém, é que essa distinção foi varrida da prática política cotidiana com uma orgulhosa sem-vergonhice.

 

Fonte: Jornal "O ESTADO DE SP" - 21/06/2026

 

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