Para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a recente crise diplomática com a Argentina não pode ser analisada de forma isolada. Integrantes do governo avaliam que a tensão com Buenos Aires faz parte da retórica adotada pelos Estados Unidos contra o Brasil.
A noticia é de CARINNE SOUZA. Nesta semana, o Brasil rebaixou as relações diplomáticas com a Argentina ao determinar que o embaixador brasileiro no país, Julio Bitelli, não tem prazo para retornar a Buenos Aires. Dessa forma, a representação brasileira fica sob os cuidados de um encarregado de negócios.
A medida foi adotada após declarações de Milei. Nos últimos dias, o presidente argentino fez críticas ao Brasil e a autoridades brasileiras em ao menos quatro oportunidades. Tal escalada não era observada desde a campanha eleitoral na Argentina, em 2022, quando Milei disputava com Sergio Massa, candidato de esquerda que havia recebido acenos de Lula no pleito.
É esse contexto que acende um alerta no governo brasileiro sobre os interesses por trás do discurso adotado por Javier Milei nos últimos dias. A avaliação é que o argentino possa ter sido “contaminado” com a política norte-americana, sobretudo do Departamento de Estado, contra o Brasil.
Nos últimos meses, o Brasil entrou no radar de uma série de medidas norte-americanas, algumas consideradas descabidas e até hostis pelo governo brasileiro. Tais medidas, avaliam membros do Planalto e do Itamaraty, podem ter motivação política, com o intuito de criar certa influência no processo eleitoral em curso no Brasil.
O temor de interferência nas eleições, porém, não é nova. Essas preocupações surgiram ainda em 9 julho de 2025, quando Donald Trump enviou uma carta ao presidente Lula anunciando que o Brasil seria tarifado em 50%. No documento, o republicano citou nominalmente o julgamento em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e afirmou que o ex-mandatário era alvo de uma “caça às bruxas”.
Nos últimos meses, as evidências apontadas por integrantes do governo são ainda mais fortes. Entre elas, uma decisão da semana passada que amplia por mais um ano o “estado de emergência” contra o Brasil. Sem qualquer efeito prático imediato, a medida pode ser usada como justificativa para adotar sanções ou ações contra o Brasil.
A decisão desta semana de alterar o visto da embaixadora do Brasil nos EUA também foi interpretada como tentativa de interferência. A medida, que não extingue o papel de Maria Luiza Viotti como representante oficial do governo brasileiro no país, foi vista como uma mensagem política ao Brasil. A avaliação é que Washington criou uma brecha no passaporte de Viotti que revoga seu trânsito livre ao país, mas sem tirar seu status diplomático.
A medida foi justificada pela demora em aceitar o embaixador norte-americano indicado ao Brasil e após o governo brasileiro negar o pedido de visto para duas autoridades norte-americanas fazerem visitas ao Brasil. A visita, conforme informou integrantes do governo, tinha como objetivo uma tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro, por isso os pedidos foram negados.
Na leitura do Planalto, tais iniciativas reforçariam interesses de natureza ideológica na condução da política externa norte-americana – o Executivo analisa que a eleição brasileira deste ano será um teste central para que Trump meça a eficácia de sua estratégia de influência na América Latina.