O Banco Master dispunha de apenas R$ 4 milhões em caixa no dia em que teve a liquidação decretada pelo Banco Central (BC), em novembro, apesar de ter mais de R$ 127 milhões em compromissos a vencer naquela mesma semana. Dados apurados pelo jornal O Estado de S. Paulo evidenciam que a instituição já se encontrava, na prática, insolvente.
Além das obrigações imediatas, o banco comandado por Daniel Vorcaro acumulava cerca de R$ 2 bilhões em depósitos compulsórios em atraso. Embora esses recolhimentos sejam obrigatórios, o Master deixou de efetuá-los em razão da grave crise de liquidez que enfrentava.
A dimensão do problema foi detalhada pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, em depoimento à Polícia Federal (PF) em 30 de dezembro. Questionado sobre o caso, ele afirmou que o BC acompanhava de perto a situação do Master — uma instituição com cerca de R$ 80 bilhões em ativos — justamente por causa do estrangulamento financeiro.
“Um banco de R$ 80 bilhões normalmente tem R$ 3 bilhões ou R$ 4 bilhões em títulos livres, e o Master, antes da liquidação, tinha apenas R$ 4 milhões em caixa”, afirmou Aquino. Segundo ele, o monitoramento constante buscava avaliar se a instituição conseguiria manter o funcionamento diário.
Os depoimentos de Aquino, de Vorcaro e do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa — todos colhidos em 30 de dezembro — foram tornados públicos apenas nesta quinta-feira, 29, depois de o ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), levantar o sigilo a pedido do BC.
Situação do Will Bank
No depoimento, Aquino alertou que uma eventual liquidação do Will Bank, banco digital ligado ao grupo Master, poderia gerar prejuízos ainda maiores ao BRB. A instituição acabou sendo liquidada no último dia 21.
“Há muitos ativos do Will dentro do balanço do BRB. A morte do Will Bank — se não for possível resolver a situação no âmbito do Raet — implicará um prejuízo maior para o BRB”, disse o diretor do BC.
Em novembro, o Will Bank foi poupado da liquidação simultânea do Master e de outras empresas do grupo. O Banco Master Múltiplo, controlador do banco digital, foi colocado em Regime de Administração Especial Temporário (Raet), sob a avaliação de que o Will ainda poderia ser vendido — hipótese que não se concretizou.
Aquino explicou que o perfil dos clientes do Will Bank, majoritariamente das classes C e D, pesou na decisão. Segundo ele, a avaliação da diretoria colegiada era de que, em caso de liquidação imediata, muitos clientes deixariam de honrar os pagamentos dos cartões de crédito.
No mesmo depoimento, o diretor do BC informou que as perdas do BRB com a aquisição de ativos do Master podem ultrapassar R$ 5 bilhões. O banco estatal desembolsou R$ 12,2 bilhões por carteiras de crédito posteriormente consideradas falsas, mas conseguiu substituir cerca de R$ 10 bilhões por outros ativos do Master. Esses papéis, contudo, também apresentam problemas e ainda podem gerar novos prejuízos.
Aquino negou ter sofrido qualquer tipo de pressão política para decidir sobre a liquidação do Banco Master. “Que eu tenha conhecimento, como diretor de Fiscalização, não recebi nenhuma pressão de autoridades da República para liquidar ou não liquidar o banco”, afirmou, ao ser questionado pela PF.
Ele disse ainda que o processo de supervisão transcorreu de forma regular e negou que o BC tenha adotado medida prudencial contra o BRB — como a proibição de novas compras de carteiras de crédito — com o objetivo de barrar a aquisição do Master. Segundo Aquino, essa restrição foi imposta em 14 de outubro, enquanto a operação entre BRB e Master já havia sido negada em setembro.