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Danilo Sá


Lula se revolta com EUA, mas silencia com a China

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A política externa costuma revelar muito sobre um governo. Não apenas pelas decisões que toma, mas principalmente pelas críticas que escolhe fazer — e pelos silêncios que prefere manter.

Desde que os Estados Unidos anunciaram o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros, o presidente Lula transformou o episódio em um embate político. Criticou o governo americano, atribuiu parte da responsabilidade a adversários internos e chegou a classificar opositores como "traidores da pátria". A retórica foi intensa, os discursos foram duros e o nacionalismo ocupou o centro do palco.

Mas o roteiro muda completamente quando o assunto é a China.

Enquanto o governo mobiliza ministros, entrevistas e pronunciamentos para reagir às medidas americanas, o mesmo entusiasmo desaparece diante da elevada tributação incidente sobre a carne bovina brasileira exportada ao mercado chinês após o esgotamento da cota anual. Nesse caso, o silêncio parece valer mais que qualquer nota oficial.

A diferença de tratamento chama atenção. Se o discurso é realmente de defesa da soberania nacional e dos interesses econômicos do Brasil, seria natural esperar a mesma firmeza diante de qualquer parceiro comercial, independentemente da bandeira que ostenta.

É justamente aí que surge a crítica mais consistente ao governo.

A política externa brasileira parece oscilar menos em função dos interesses nacionais e mais conforme a conveniência ideológica de seus interlocutores. Contra Washington, há discursos inflamados. Contra Pequim, prevalece a diplomacia silenciosa. O problema é que produtores rurais, frigoríficos e exportadores não fazem distinção ideológica quando a conta chega.

O agronegócio brasileiro movimenta bilhões de reais, gera empregos e sustenta boa parte do superávit da balança comercial. Quando barreiras comerciais afetam esse setor, o prejuízo ultrapassa qualquer disputa diplomática. É economia real.

Isso não significa que o governo deva romper relações ou adotar uma postura de confronto permanente com Estados Unidos ou China. Significa apenas que coerência também é um ativo diplomático. Quem reage com firmeza a um parceiro e adota cautela absoluta com outro inevitavelmente abre espaço para questionamentos sobre os critérios utilizados.

No fim, sobra a impressão de que o discurso da soberania muda conforme o país envolvido. Se a medida vem de Washington, ela vira ataque ao Brasil. Se vem de Pequim, transforma-se em um assunto tratado quase em voz baixa.

E a soberania, quando depende da nacionalidade de quem a desafia, deixa de ser princípio para se tornar conveniência política.

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