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Ciro Marques


Se a delação de Camisotti começar a vazar, muita gente de esquerda vai perder o sono

Maurício Camisotti - Foto: Reprodução

A delação premiada do empresário Maurício Camisotti, um dos pivôs da "Farra do INSS", foi fechada com a Polícia Federal e já está nas mãos do ministro André Mendonça, no STF, que a encaminhou à Procuradoria-Geral da República para análise. Até aqui, a esquerda brasileira tratou o escândalo do INSS como problema periférico, ofuscado pelo barulho maior do caso Master. Mas se os anexos dessa delação começarem a vazar, como costuma acontecer em Brasília, o desconforto pode mudar de endereço rapidamente.

Camisotti não é um personagem qualquer. Preso desde setembro na Operação Sem Desconto, ele confessou ter movimentado cerca de R$ 1 bilhão por meio de três entidades de fachada que aplicavam descontos indevidos nos contracheques de aposentados e pensionistas. O rombo total estimado pode chegar a R$ 6,3 bilhões, com mais de cinco milhões de beneficiários lesados entre 2019 e 2024. Gente humilde, que depende de cada centavo da aposentadoria, sendo sangrada por um esquema que operava com a tranquilidade de quem sabe ter proteção política.

E é justamente aí que o incômodo se instala. Na delação, Camisotti citou nominalmente o senador Weverton Rocha (PDT-MA), líder do governo Lula no Senado e relator da indicação de Jorge Messias ao STF. Não se trata de um nome do baixo clero ou de um parlamentar de oposição que possa ser descartado sem custo. É o líder do governo. A PF identificou indícios de repasses mensais de R$ 50 mil a pelo menos 15 parlamentares em troca de influência sobre decisões internas do INSS. Um balcão de negócios montado dentro da Previdência, bancado pelo aposentado brasileiro.

A esquerda, que construiu sua identidade política sobre a bandeira da defesa dos mais vulneráveis, terá enorme dificuldade de explicar à opinião pública como o esquema que roubava aposentados floresceu justamente debaixo do nariz de um governo que se diz popular. Se o caso Master expõe a direita e o Centrão, a "Farra do INSS" tem potencial para fazer o mesmo com figuras orgânicas da base governista.

É claro que o esquema transcende governos e ideologias. As fraudes começaram antes de Lula e envolvem gente de todos os matizes políticos. Mas o discurso seletivo de indignação já não cola. O Palácio do Planalto investiu pesado na narrativa do "BolsoMaster" para vincular o escândalo bancário exclusivamente à direita. Se a delação de Camisotti revelar que a mesma lógica de captura institucional operava no INSS com participação de aliados do governo, o tiro sai pela culatra.

 

O fato é que Brasília funciona assim: quando uma delação é homologada, o conteúdo, mais cedo ou mais tarde, escorre. E quando escorrer, não vai respeitar crachá partidário. Muita gente que hoje finge não ver o caso do INSS pode se descobrir, da noite para o dia, precisando de advogado e de uma boa explicação.

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