Ontem os Estados Unidos classificaram as duas facções PCC e CV como organizações terroristas. O governo brasileiro reagiu com indignação. Não contra as facções — contra a classificação.
Semanas atrás, o presidente Lula cruzou o continente para pedir moderação no combate ao crime organizado que aterroriza o brasileiro todos os dias. E voltou de mãos vazias.
O argumento oficial é a soberania.
Curioso... Soberania é o poder do Estado sobre seu território. Pergunte aos moradores das periferias pelo brasil quem manda no seu bairro, na sua rua. Não é a bandeira do Brasil. É o tribunal do tráfico, o toque de recolher da facção, o pedágio do crime.
A soberania que o governo diz defender já foi entregue — não para os americanos, para os bandidos. O PCC cobra imposto, decreta lei e executa sentença em dois terços dos estados brasileiros. Isso não é crime comum. É poder paralelo.
A verdade incômoda é mais simples. A maior angústia do brasileiro hoje é a segurança pública. Não é a inflação, não é o STF, não é a pauta de costumes. É o medo de sair de casa. E é exatamente nessa frente que o governo fracassa com mais constância. Não consegue resolver — e agora resiste quando alguém de fora se dispõe a apertar o cerco financeiro das facções, rastrear lavagem, congelar ativos, cortar a rota do dinheiro que a nossa própria máquina não cortou.
Há riscos reais na medida, e seria desonesto fingir que não. A designação pode abrir brecha para sanção a bancos brasileiros e, no limite, servir de pretexto a aventuras militares — fantasma que ninguém de bom senso quer ver no quintal. Esse debate é legítimo e precisa ser feito com seriedade.
Mas há uma diferença entre discutir os efeitos colaterais de um remédio e recusar o diagnóstico. O governo recusou o diagnóstico. Preferiu proteger a imagem da soberania a proteger o cidadão que ela deveria abrigar.