O secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio Grande do Norte (Sedec), Hugo Fonseca, faz uma leitura direta — e contraintuitiva — sobre as recentes devoluções de outorgas de geração de energia no Estado: não há fuga de investimentos. Há ajuste.
À primeira vista, o movimento pode soar como sinal de desconfiança no setor elétrico. Mas, segundo o secretário, trata-se de um reposicionamento provocado por mudanças estruturais no marco regulatório e nas condições de mercado.
O ponto de inflexão vem de 2021, com a revisão das regras que sustentavam o crescimento das fontes renováveis. O fim progressivo dos subsídios e a modernização institucional do setor alteraram a lógica de viabilidade dos projetos. A conta ficou mais dura — e mais realista.
Antes disso, houve uma corrida por outorgas. O prazo legal que garantia descontos tarifários incentivou o protocolo apressado de projetos — muitos ainda sem maturidade técnica ou financeira. O que se vê agora, na avaliação de Hugo Fonseca, é a depuração desse estoque.
A esse quadro soma-se um entrave conhecido: a limitação da rede de transmissão. No Nordeste, e particularmente no Rio Grande do Norte, a expansão da geração superou a capacidade de escoamento. Resultado: curtailment, com interrupções compulsórias de geração que elevam o risco e pressionam a rentabilidade dos empreendimentos.
Nesse contexto, devolver a outorga deixa de ser derrota. É decisão racional.
O secretário aponta que o setor entra em uma nova fase — menos dependente de incentivos e mais guiada pela eficiência. Permanecem os projetos robustos, competitivos e tecnicamente consistentes. Os demais tendem a ficar pelo caminho.
Mas há uma inflexão estratégica em curso. O mesmo gargalo que limita o escoamento abre uma nova frente de desenvolvimento: atrair o consumo para perto da geração.
Data centers, estruturas de supercomputação e indústrias eletrointensivas passam a enxergar no Rio Grande do Norte um ambiente favorável, ancorado em energia limpa, abundante e competitiva.
A lógica muda: em vez de exportar energia, o Estado passa a disputar investimentos que consumam essa energia localmente.
Para Hugo Fonseca, o que está em curso não é retração, mas maturidade. Um processo de seleção que tende a qualificar os investimentos e alinhar o setor a um novo ciclo — mais competitivo, mais sustentável e menos dependente de subsídios.