A operação de ontem que levou à busca e apreensão sobre o Banco Master é baseada em uma suspeita de fraude para desviar dinheiro do banco, no total de R$ 5,7 bilhões, que envolve uma clínica médica e um hospital infantil.
Informações obtidas pelo UOL. em inquérito conduzido no ano passado, o MPF (Ministério Público Federal) de São Paulo identificou que o Master direcionou parte considerável dos recursos captados via CDBs a fundos de investimento em que era cotista único.
Esses fundos, por sua vez, eram usados para adquirir títulos emitidos por empresas que possuíam "vínculos societários ou relações pessoais com os sócios do Banco Master".
Uma transferência de R$ 9 milhões oriundos desse esquema foi repassada de um intermediário para Henrique Vorcaro, pai de Daniel, aponta o MPF, o que reforça os indícios de desvio de dinheiro.
A Clínica Mais Médicos, por exemplo, emitiu R$ 361 milhões em notas comerciais "sem quaisquer garantias". O capital social da empresa era zero e a dívida era 6.500 vezes maior que sua receita anual bruta, que em 2023 fechou em R$ 54 mil.
Os valores demonstram "uma alavancagem manifestamente incompatível com qualquer parâmetro de viabilidade econômica".
A presidente e sócia da empresa, Valdenice Pantaleão, foi alvo de busca e apreensão na operação de ontem.
"Apesar de presidir uma sociedade que captou milhões, (Valdenice) não possui patrimônio e foi beneficiária de auxílio emergencial em 2020 e 2021, o que demonstra que na realidade figurava como interposta pessoa ('laranja')", apontou o MPF.
"Mesmo padrão de emissão"
Outro indício de que a empresa servia como laranja é que Valdenice outorgou uma procuração a Fernando Alves Vieira, que tem parentesco com sócios do Banco Master. A Clínica Mais Médicos está ligada ao Hospital da Criança de São José, que também emitiu R$ 372 milhões em notas adquiridas pelo Master.
"Outras empresas vinculadas aos sócios, como a Holding AF S.A. e Simetria Planos de Saúde Eireli, reproduziram o mesmo padrão de emissão de NCs adquiridas pelos fundos do Banco Master."
Dos mais de R$ 3,5 bilhões investidos pelo Master em fundos dos quais é cotista único, aproximadamente R$ 1,8 bilhão foi destinado à aquisição de notas emitidas por empresas vinculadas aos próprios sócios, apontou a investigação.
Considerando operações correlatas, o MPF chegou em um valor total de R$ 5,7 bilhões sobre os quais foram solicitados bloqueios.
A investigação detectou também a prática dos crimes de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro oriundo do Master pelos responsáveis pelas administradoras de fundos de investimento Reag, Ruby Capital e Trustee DTVM.
Com base em um relatório enviado pelo Banco Central e relatado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) no âmbito da investigação, constatou-se que João Mansur, ex-dono da Reag, usou a gestora para desvio de valores do Master.
Os filhos de Mansur também teriam sido usados como laranjas para a prática do crime, segundo indica a investigação.
Os desvios articulados pela Reag passam por uma empresa chamada Brain Realty que, como mostrou a Folha de S.Paulo, recebeu cerca de R$ 460 milhões em falsos empréstimos do Master.
Esses valores depois foram repassados a fundos que aplicaram o dinheiro em papéis de baixa liquidez e valor fictício, como cártulas do Besc, banco de Santa Catarina extinto em 2008.
"Tais fluxos, que ocorreram entre abril e maio de 2024, totalizaram um desembolso de R$ 1,45 bilhão pelo Banco Master, com um retorno de R$ 1,38 bilhão via aquisição de CDBs pelos fundos Astralo 95 e Reag Growth 95", diz a manifestação da PGR.
Outro lado
Após a operação, a defesa de Vorcaro disse que o banqueiro "tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes" e está à disposição para prestar esclarecimentos. A defesa do empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, afirmou que ele está "à inteira disposição das autoridades" para cooperar e que suas atividades são "lícitas", sem relação alguma com a gestão do Banco Master.
Em nota, a defesa de Nelson Tanure afirmou que ele não tem qualquer relação de natureza societária com o Master e que tem certeza que a investigação vai demonstrar a inexistência de qualquer prática ilícita. O advogado de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, declarou que não teve acesso à investigação, mas que está à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos devidos.