A cena foi de velório. Todo mundo de cara fechada, sem esconder a preocupação e a incredulidade.
Foi assim que o senador Flávio Bolsonaro, presidenciável do PL, admitiu ter se reunido com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após a primeira prisão do banqueiro, no fim de 2025.
Vorcaro já usava tornozeleira eletrônica.
Segundo Flávio, a conversa no apartamento do ex-banqueiro, em São Paulo, serviu para “botar um ponto final” na questão do financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. Poderia ter feito isso por telefone, e-mail ou até carta registrada. Preferiu, no entanto, dizer algo importante e inadiável pessoalmente.
Desde a semana passada, quando o próprio Flávio admitiu ter recebido mais de R$ 60 milhões de Vorcaro e tentava garantir a transferência de outros R$ 60 milhões, o país assiste a uma verdadeira “chanchada” da política nacional em meio ao maior escândalo financeiro já descoberto pelas autoridades.
O filho de Bolsonaro jura que tratou apenas do filme do pai com o ex-banqueiro — que, segundo as investigações da Polícia Federal, distribuía dinheiro e benesses para donos dos poderes em Brasília.
A impressão é que Vorcaro saiu comprando quem estivesse à venda — ou disposto a se vender.
E não fazia isso gratuitamente. Quem conhece a corte brasiliense sabe que ninguém presta favor sem esperar algo em troca.
Em Brasília, poucos têm vocação para Irmã Dulce ou Madre Teresa de Calcutá.
A oração mais repetida por lá lembra a de São Francisco: é dando que se recebe.
Custa acreditar que Flávio Bolsonaro tenha tratado apenas do filme sobre o pai, porque não era assim que Vorcaro operava.
Segundo os registros sob investigação da Polícia Federal, ele costumava pagar caro pelos favores que cobrava de gente poderosa dos governos, dos Legislativos e dos tribunais.
A cada dia, a história do “Azarão” — tradução do inglês Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro — vai se transformando numa película de terror para a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
O senador tem apresentado versões pouco críveis e que, muitas vezes, não se sustentam.
O roteiro pode piorar ainda mais se o banqueiro resolver contar detalhes na delação que negocia com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República.
Por enquanto, a colaboração não avançou porque Vorcaro parece proteger muita gente poderosa. Não estaria entregando tudo — até porque boa parte do material já se encontra nas mãos da Polícia Federal.
A versão de Daniel Vorcaro sobre o dinheiro destinado ao filme de Bolsonaro pode enterrar de vez os planos presidenciais do filho Zero 01.
É bom deixar claro: não estamos falando de arte ou de obra cinematográfica. Estamos falando de bilhões de reais desviados de fundos fraudados e irrigados com dinheiro público.
Não havia nada de privado, como afirmou Flávio Bolsonaro. Nem mesmo as festas promovidas por Daniel Vorcaro. Pelo que se sabe, o banqueiro gravava muita coisa para manter seus convidados na palma da mão.