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Edmo Sinedino


AO MESTRE "BURRÃO", COM CARINHO - Por Lerson Fernando

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AMANHÃ EU VOU; NÃO VAI, QUANDO VAI JÁ É TARDE -  Lerson Fernando *

Quem nunca vivenciou no cotidiano essa frase, título dessa carta aberta, dedicada ao meu amigo e meu primeiro treinador de futebol: Edval, conhecido carinhosamente por Burrão Preto. Apelido que na época não tinha o entendimento de ser racista, nem muito menos preconceituoso. Se simplesmente escrever sobre Edval e não acrescentar seu apelido, pouca gente vai saber de quem se trata.

Desejar visitar alguém ou pensar que precisa visitar um amigo/a, parente ou familiar. Principalmente aquele/a que estar passando um momento delicado na vida, acontece com todos nós praticamente todos os dias. Porém, sempre vamos adiando, deixando para o dia seguinte, seguinte, seguinte. Quando menos esperamos chegar a notícia: fulano passou para o outro plano espiritual. Se juntam sentimentos de dor, saudade e remorso, sempre.

Assim aconteceu comigo e meu amigo Burrão Preto. Circulo quase todos os dias pela cidade alta, precisamente no Beco da Lama, reduto de residência de Edval. Porém, pensava em visitá-lo, no entanto, sempre deixava para o dia seguinte. Para minha tristeza, um determinado dia encontro com Zé Carlos, excelente volante do futebol que, para tristeza dos amantes do futebol, abandonou o futebol para ser um exímio ala/centrral de futsal, passando pelo ABC, América, AABB, entre outros. Que, diga-se de passagem, cria do Independente da Cidade Alta, time de futebol e futsal fundado e mantido por Edvaldo durante o final dos anos 60, início dos anos 70. E recebo a notícia do provável, mas quase certo, falecimento do nosso querido Edvaldo.

Visando confirmar o fato, lembro de ligar para Edmo Sinedino, hoje jornalista, morador antigo da Cidade Alta, também cria (como se diz na gíria do futebol) do olhar atento de Edval. Diferente de Zé Carlos, Edmo Sinedino, deixa o futsal para se dedicar ao futebol, brilhando como atleta profissional no Força e Luz, Alecrim, ABC entre outros Clubes do Nordeste brasileiro. Edmo Sinedino e Eduardo Sinedino, irmãos, confirmam junto a Roberto “Bora-Porra”, outro antigo morador da Cidade Alta, e torcedor símbolo do ABC, o falecimento de Edval/Burrão Preto, ocorrido em novembro passado (2025).  

Surgem as primeiras indagações: 1) Como uma pessoa tão popular, morador antigo do Beco da Lama, comerciante e desportista conhecido, tem seu falecimento e praticamente ninguém sabe? 2) Será que foram os poucos familiares que não fizeram questão de divulgar? Ou será mesmo que os valores da sociedade atual mudaram tanto que ninguém valoriza o outro.

No início dos anos 70, Natal tinha diversos times de futebol infantil/juvenil, espalhados pelos diversos bairros e regiões administrativas da capital; times mantidos por abnegados, sem apoio governamental, empresarial e nem político. No bairro das Quintas, existia o Corinthians de Lenira, na zona sul o Neópolis de Raimundo França e o Parnamirim do professor Basílio, o Vasco de Beleú em Dix-sept Rosado e o Independente da Cidade Alta de Edval, entre diversos outros. Porém, os clássicos envolviam sempre esses quatro ou cincos times.

No entanto, o Independente da Cidade Alta, ou Independente de Edval, tinha uma característica bastante peculiar: era um dos poucos times que constava jogadores de praticamente todas as regiões de Natal: além da Cidade Alta, Tirol, Petropólis, Nova Descoberta, Rocas, tinha dos bairros do Alecrim, Quintas e Nazaré. Tudo isso, graças a visão do olheiro Edvaldo.

O mesmo, circulava todos os bairros de Natal, assistindo as famosas peladas, realizadas geralmente no período da tarde, nos mais diferentes locais (calçadas, campinhos de areia, ruas (naquela época se podia). Natal ainda não estava no crescimento urbano desordenado, nem na especulação imobiliária, que ocorre a partir dos anos 80 e faz desaparecer nossos maravilhosos campinhos de peladas - Mangueirão, Régulo Tinôco, Sítio de Doutor Choque, Arquidiosano e outros.

No Independente de Edvaldo despontaram jogadores que em seguida foram fazer sucesso nas equipes profissionais da capital: Edmo Sinedino, Tinho, Gelson, Berg, Lerson, Zé Carlos (Futsal), Pequeno (Futsal), João Maria (Tôco), Dênis Lisboa, Paulinho, Vicente,  sem falar que Lula Soberano (Flu, Inter e Seleção) e Marinho Chagas também vestiram a camisa do Independente, entre diversos outros atletas.

O humilde Independer foi campeão do Campeonato da LAC (Liga de Assistência à Criança), criada durante o Governo Cortez Pereira, e coordenada por sua esposa, Aída Cortez. Esse campeonato, aconteceu no início dos anos 70 com mais de 40 equipes. Ser campeão da LAC, proporcionou ao Independente de Edval realizar provavelmente o primeiro jogo infantil interestadual de um clube do Sudeste com uma equipe de Natal. Duelo este realizado no antigo Castelão, em pleno domingo, na preliminar de ABC x América, estádio totalmente lotado. O jogo Independente da Cidade Alta/ Edval e o XV de Piracicaba terminou empatado 0 x 0.

Edval viveu sua época de olheiro de jovens jogadores nos diversos bairros de Natal, circulando na sua moto/lambreta ou bicicleta. Período que não existia os atuais empresários do futebol infanto/juvenil, nem muito menos apoio institucional. Importante registrar que Edval não era um treinador de muitas palavras e longas preleções, ele tinha a capacidade de organizar sua equipe com jogadores que se encaixava como uma luva, facilitado por realizar diariamente, no período da tarde, treinamentos no campo do 16º RI ou nos campos do Hospital João Machado.

Nossa equipe era tão organizada taticamente, que mesmo sendo constituída somente por jovens, com no máximo 20 anos, chegamos às quartas de finais de um famoso e tradicional campeonato de futebol de adultos que existia nas capitais brasileiras denominado de Copa Arizona. Às quartas de finais desse ano, foi composta do Racing das Rocas, ASA do Catre, Independente de Edval e o Palmeiras das Rocas, chegando a honrosa posição de terceiro colocado.

Edval sempre deu uma grande contribuição e ajuda aos seus atletas, mesmo sendo um pequeno comerciante da Cidade Alta, começando seu negócio com aluguel e consertos de bicicletas e por último se fixando como chaveiro, sempre localizado no me torno da Praça Padre João Maria. Nosso mestre sempre nos dias que antecediam aos jogos, principalmente os clássicos, saía circulando Natal, para confirmar a presença dos atletas e caso alguém estivesse passando por uma dificuldade financeira de passagens, ele imediatamente repassava o valor, para garantir a presença daquele atleta no jogo.

Edval, não sei os motivos da sua saúde que fez você realizar sua partida para o outro plano, mas afinal o que interessa. Só desejo que a travessia tenha sido leve, como leve era seu jeito de conversar, uma mistura de simplicidade e sabedoria. Obrigado amigo pelas conquistas que tivemos juntos nos campos de futebol da nossa capital. Nossa geração agradecer as oportunidades. Tu lembras dos clássicos tínhamos naquele minicampo, em baixo hoje do viaduto do baldo? hoje sede da Cosern/Neoenergia. Descanse em Paz amigo.

Gratidão.

* Lerson Fernando, professor, ex-reitor do IFRN da Cidade Alta, ex-atleta do Independente, ABC e Riachuelo

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