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Ênio Sinedino


Apertem os cintos!

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Há duas boas noticias circulando em Brasilia.

A primeira é que o Brasil vai simplificar seus impostos. A segunda é que o trabalhador vai descansar mais. Ambas são verdadeiras — e ambas, para quem produz e assina a folha no fim do mês, vêm com misto de temor e desconfiança.

A reforma tributária já roda em fase de teste desde janeiro, aquele período simpático em que o novo imposto aparece na nota só para o contribuinte ir se acostumando, como quem apresenta a fatura antes da consumação.

A promessa é nobre: juntar cinco tributos num só. Ninguém é contra simplificar. O problema é que simplificar não é baratear — sairemos com o maior imposto sobre consumo do planeta, e o empresário vai pagar quase o mesmo, só que com menos formulários.

O golpe mais duro tem nome técnico e efeito concreto.

Hoje o comerciante recebe a venda, usa o dinheiro para pagar fornecedor e funcionário, e só depois recolhe o imposto. No modelo novo, o Fisco não espera na fila: saca a parte dele na hora, direto da máquina, e o comerciante fica só com o líquido. É o capital de giro de milhões de empresas evaporando de um dia para o outro — sobretudo nas de margem apertada, a padaria, o mercadinho, o prestador de serviço. Quem girava o próprio caixa agora vai bancar esse fôlego no banco, a juros extorsivos, que de camaradas não têm nada.

E há o fim da escala 6x1, que é onde o estrago aparece mais rápido. Trocar seis dias de trabalho por um de folga pelo modelo 5x2, com jornada menor, é justo — quem trabalha o dia inteiro merece descansar, e nisso não há debate.

O debate é outro: quem paga.

Menos horas pela mesma folha significa cada hora de trabalho ficando mais cara, e o empresário só tem três saídas, todas ruins.Contratar mais gente, e mais encargos. Repassar ao preço, e o freguês reclama. Ou produzir menos, e o país encolhe. Comércio, bares, restaurantes, o varejo que abre no domingo — todos que vivem de horário estendido — são os primeiros da fila. E, quando o custo formal aperta, o trabalhador não desaparece: ele escorrega para a informalidade, aquele lugar sem férias, sem 13º e sem descanso nenhum. Ironia fina para uma lei que nasceu prometendo justamente mais descanso.

Somadas, as duas contas não são um ajuste — são um teste de resistência que parte do setor produtivo pode não suportar. Empresa de caixa apertado não sobrevive a ter o imposto sacado na origem. Comércio que depende de horário estendido não absorve folha mais cara sem cortar gente. E investidor nenhum aporta onde a regra muda no meio do jogo.

O roteiro é conhecido: demissão para segurar o custo, preço lá em cima para segurar a margem, investimento engavetado e, na ponta mais frágil, a porta fechada.

Ninguém planejou esse desfecho — mas ninguém, no planalto, parece ter feito a conta de quem paga por ele.

 

 

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