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Ênio Sinedino


O Mister Carleto

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Foto: Getty Images

Há uma cena que se repete a cada quatro anos no Brasil: setenta milhões de técnicos, todos com escalação pronta e resolvem que sabem mais de futebol do que o sujeito sentado no banco. Desta vez, porém, o sujeito no banco é Carlo Ancelotti — O Mister Carleto.

Convém lembrar quem é o réu antes de ler a sentença. Como jogador, Ancelotti não foi figurante: meio-campista de passe fino e leitura de jogo, ergueu duas Copas dos Campeões da Europa pelo Milan, em 1989 e 1990, e colecionou Scudettos entre Roma e Milan.

Como técnico, a biografia beira o indecente. Cinco Champions League — recorde absoluto para um treinador —, duas com o Milan e três com o Real Madrid. Treze títulos só na segunda casa madrilenha. E uma marca que talvez seja a mais eloquente de todas: é o único homem a ser campeão nas cinco grandes ligas da Europa. Serie A na Itália, Premier League na Inglaterra, Ligue 1 na França, Bundesliga na Alemanha, La liga na Espanha. Ancelotti não venceu num sistema; venceu em todos. É como um maestro que rege orquestra alemã, ópera italiana e o flamenco espanhol sem trocar de fraque.

Pois este é o senhor que a CBF entregou, com pressa e pouca pólvora, a missão de reorganizar a Seleção às vésperas do Mundial. E aqui mora a primeira injustiça do processo: o tempo. Ancelotti chegou tarde para o casamento e ainda pediram que arrumasse a igreja, comprasse as flores e ensaiasse os noivos. Montar uma seleção competitiva em meses é ofício de milagreiro, não de treinador — e milagre não consta no currículo de ninguém, nem no dele.

Como se o relógio já não conspirasse, a enfermaria fez sua parte. Militão, Rodrygo e Estêvão — três titulares, três lesões e Neymar, convocado em meio a aplausos e ressalvas, chegou à Copa mancando de uma panturrilha que insiste em lembrar a todos que o tempo também não perdoa craques. Ancelotti recebeu, portanto, não a Seleção dos sonhos, mas a que sobrou depois que o departamento médico fez a triagem.

Foi nesse cenário que veio a acusação preferida dos torcedores de sofá: escalar Casemiro e Lucas Paquetá? Chamaram de teimosia, de aposta errada, de falta de coragem. Talvez. Ou talvez seja o oposto — a leitura fria de quem, com o elenco desfalcado, prefere a experiência que não treme em jogo decisivo à novidade. Ancelotti nunca foi treinador de fogos de artifício. É treinador de resultado, e resultado, no fim, é o único idioma que o futebol respeita.

Não sei até onde o Brasil vai nesta Copa. Ninguém sabe, e quem jura saber está mentindo ou vendendo palpite. O que sei é que, entre todas as variáveis que escapam ao controle de um treinador — a lesão, o chaveamento, o pênalti no minuto errado —, o Brasil acertou justamente na única que dependia de escolha: quem manda no banco.

Carlo Ancelotti não está nos Estados Unidos para provar nada. Já provou. Provou na Itália, na Inglaterra, na França, na Alemanha, na Espanha. Provou como jogador e reprovou, uma a uma, as teorias de que futebol se ganha no grito. Se o Brasil chegar mais longe do que imagino, será mais uma linha numa biografia que já não cabe nessa página. Se cair antes, o retrato dele na galeria dos grandes continua exatamente onde está — pendurado, firme, indiferente ao resultado.

Que venha a Noruega!!!

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