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Ênio Sinedino


O fracasso tem CNPJ

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Terminou a Copa e, pontual como a saudade, chegou a nossa liturgia nacional: a caça ao culpado. Desta vez os réus da vez são Bruno Guimarães, que bateu o pênalti nas mãos do goleiro norueguês; Endrick, que perdeu um gol que até minha tia acertaria de olhos vendados; Ancelotti, que mexeu quando devia ficar quieto e ficou quieto quando devia mexer; e Neymar, o eterno "devia ter entrado antes" — sempre antes, nunca durante.

É reconfortante. Aponta-se um dedo, xinga-se um nome, e todo mundo dorme tranquilo achando que o problema cabe numa camisa numerada. Só que não cabe.

O problema tem endereço, tem timbre e tem CNPJ. Chama-se CBF.

Vamos exercitar a memória — que no Brasil é curta por natureza. José Maria Marin, presidente da entidade, condenado nos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e fraude. Marco Polo Del Nero, sucessor, banido do futebol para sempre, com direito a alerta da Interpol. Rogério Caboclo, afastado por acusações de assédio sexual. Ednaldo Rodrigues, afastado, recolocado, questionado, num vaivém jurídico que faz corar um autor de novela mexicana. Pois é... essa é a instituição que deveria "cuidar" do nosso futebol. Cuida de si mesma, com afinco.

E a sucessão técnica? Aqui a comédia atinge o pastelão. Em quatro anos, quatro comandos. Ramon Menezes, "interino" por mais de um ano — no Brasil, o provisório é a única coisa permanente. Fernando Diniz, que treinava o Fluminense e a Seleção ao mesmo tempo, num arranjo que só faz sentido para quem acha que a camisa amarela é bico de fim de semana. Dorival Júnior, o gerente de transição. E, por fim, Carlo Ancelotti, o bombeiro europeu contratado para apagar um incêndio que a própria casa ateou — e ainda cobraram dele que salvasse o imóvel em pouco mais de um ano.

Some-se a isso a lista de baixas: Rodrygo, Militão e Estêvão, titulares de fato, fora. E, para arrematar, Neymar convocado machucado, sem ritmo, sem jogo, empurrado para dentro por uma "pressão popular" que, curiosamente, sempre aparece quando convém a alguém nos bastidores.

E é esse o ponto que os holofotes teimam em não iluminar. Enquanto a França, Argentina e a Espanha tratam suas seleções como projetos de Estado — anos de método, base, identidade de jogo, continuidade —, nós tratamos a nossa como puxadinho: cada Copa, uma reforma emergencial, um pedreiro novo, uma planta rabiscada no guardanapo. Depois estranhamos que a casa não fique de pé.

Futebol hoje é planejamento. É banco de dados, é ciclo de quatro anos, é elenco lapidado e treinado com paciência. Não se monta uma seleção competitiva em treze meses, no susto, no arranjo e ainda por cima com padrinhos de agenciamento decidindo quem sobe ao palco.

Então, sim: reclame do pênalti. Esbraveje pelo gol perdido. Xingue a substituição atrasada. É seu direito de torcedor, e faz bem ao fígado. Mas saiba que está brigando com o sintoma e poupando a doença.

O erro de Bruno Guimarães dura noventa minutos. O erro da CBF dura décadas.

O futebol mudou. Mudaram os métodos, mudou o mundo. Só uma coisa se recusa teimosamente a mudar — e ela fica numa sede em plena Barra da Tijuca, protegida por estatutos, blindada por liminares, e imune, sempre imune, à única coisa que de fato faz falta por lá: prestação de contas.

Enquanto a raposa continuar responsável pelo galinheiro, pode trocar de galo à vontade. O jantar será sempre o mesmo.

Por fim, num campeonato de tiro curto como copa do mundo – “QUEM NÃO MATA, MORRE.”

 

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