O ataque de Donald Trump ao árbitro brasileiro Raphael Claus não surgiu sobre um personagem desconhecido do futebol internacional. Claus é árbitro Fifa, representou o Brasil na Copa do Mundo do Catar, apitou jogos importantes da Conmebol e da CBF, já foi eleito um dos melhores árbitros do país, mas também carrega no currículo recente um histórico de forte contestação pública, especialmente depois das acusações feitas pelo empresário americano John Textor, dono da SAF do Botafogo.
Textor, que é americano e se tornou uma das vozes mais barulhentas contra a arbitragem brasileira, colocou Raphael Claus no centro de sua cruzada sobre supostas manipulações no futebol nacional. Em 2024, o Botafogo enviou ofício à CBF pedindo que Claus fosse retirado da escala de um clássico contra o Flamengo e também que não apitasse jogos do clube enquanto durasse a CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas no Senado, conhecida como CPI das Bets.
A justificativa do Botafogo foi pesada. O clube alegou que Textor havia citado, em depoimentos e manifestações oficiais, supostos erros de Raphael Claus e da árbitra de vídeo Daiane Muniz em partidas do Campeonato Brasileiro de 2023. Um dos jogos mencionados foi Botafogo x Flamengo, marcado por reclamações alvinegras sobre lances decisivos. À época, a imprensa registrou que o clube questionava a independência e a imparcialidade do árbitro para atuar em partidas envolvendo o Botafogo.
O nome de Claus também chegou ao Senado. A CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas aprovou ou discutiu requerimentos para ouvir Raphael Claus, Daiane Muniz e dirigentes da arbitragem da CBF. Segundo reportagens da época, a convocação tinha como pano de fundo a frequência com que Claus e Daiane teriam atuado juntos no Brasileirão de 2023 e os questionamentos levantados por Textor sobre decisões de arbitragem. A comissão também apurava denúncias mais amplas sobre manipulação de resultados e atuação de árbitros no futebol brasileiro.
É importante separar os fatos das acusações. Raphael Claus foi alvo de questionamentos, foi citado no ambiente da CPI e teve sua atuação contestada por Textor e pelo Botafogo, mas não há condenação pública contra ele por manipulação de resultados. As denúncias de Textor sempre provocaram enorme repercussão, mas também foram tratadas com cautela por autoridades esportivas e pela própria imprensa, justamente por envolverem suspeitas graves que dependem de prova técnica, perícia e contraditório.
Esse histórico, porém, ganhou nova dimensão com Trump. Ao reclamar da expulsão do atacante americano Folarin Balogun na Copa do Mundo, o presidente dos Estados Unidos chamou Claus de “um tanto suspeito” e disse que o passado do árbitro seria “muito suspeito”. A fala colocou em escala mundial uma controvérsia que, até então, estava muito ligada ao futebol brasileiro, ao Botafogo, à CPI das Bets e à guerra declarada de John Textor contra decisões de arbitragem.
Na prática, Trump explorou uma sombra já existente sobre Claus, mas fez isso sem apresentar publicamente prova concreta contra o árbitro brasileiro. O caso agora une três camadas explosivas: a pressão política de um presidente sobre a Fifa, a defesa direta de um jogador da própria seleção americana e o reaproveitamento internacional de acusações feitas anteriormente por outro americano, John Textor, no futebol brasileiro. Para Claus, que já foi símbolo da arbitragem nacional em Copas e grandes decisões, o episódio transforma antigas contestações em munição política no maior palco do futebol mundial.