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Ênio Sinedino


O meu Pelé tem nome e sobrenome: Lionel Messi

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Nasci em 1964, o que me condena a uma tristeza sofisticada: sou velho o bastante para ter dividido o planeta com Pelé jogando, e novo demais para tê-lo visto no auge.

Meu álibi é honesto. Em 1972, com oito anos, meu pai me levou ao Machadão para ver ABC e Santos. Havia um homem em campo que a multidão tratava por Rei, mas confesso, sem culpa, que a memória de menino guardou mais o barulho da arquibancada do que aquele negro esguio desfilando em campo. Depois vieram as imagens, os vídeos granulados, e a despedida em 1977, quando o Cosmos enfrentou o Santos e Pelé jogou um tempo para cada lado.

Do Rei, portanto, herdei o mito, não a testemunha. E mito, convenhamos, é adversário imbatível: não erra passe, não perde pênalti, não envelhece. Quem vem depois joga sempre contra um fantasma que reinventou o futebol.

Ainda assim, passei a vida procurando. Vi Maradona conduzir uma bola como quem a tivesse amarrado no pé. Vi Zico fazer da falta uma assinatura. Vi Romário resolver jogos inteiros num espaço minúsculo de área. Vi Ronaldo — o Fenômeno — devolver ao Brasil, numa noite de 2002, a Copa que um episódio nebuloso lhe havia roubado quatro anos antes. Vi Ronaldinho sorrir enquanto humilhava zagueiros, e vi Cristiano Ronaldo transformar o próprio corpo numa máquina de gols por pura teimosia e obstinação. E vi Neymar, o nosso prodígio, que teve tudo — menos a paciência do destino.

Génios, todos. Mas há uma pergunta que separa o craque do imortal, e ela é cruel: Quando o parâmetro é Pelé, quem chegou mais perto?

Eu queria, de coração brasileiro, escrever aqui o nome de Zico ou de um dos Ronaldos. Seria patriótico, seria simpático, seria o que o leitor daqui esperaria de mim. Mas crônica honesta não é comício. E a resposta, para mim, atende por um nome argentino: Lionel Messi.

Explico, antes que rasguem minha certidão de nascimento. Não é só a coleção — embora ela intimide qualquer discurso: Oito Bolas de Ouro, quando ninguém mais passou de cinco; maior artilheiro na história do Barcelona; o sujeito que fez 91 gols num único ano de 2012 e até hoje, 919 gols. O resto é aquilo que só Pelé tinha me feito imaginar: a sensação de que no jogo, quando a bola chega àquele pé, muda de gênero — deixa de ser esporte e vira uma coisa entre o sobrenatural e a dança.

Faltava-lhe, diziam os “comentadores” de plantão, a Copa. Pelé tinha três; Messi, nenhuma. Era o argumento definitivo, a cláusula que o condenava à segunda prateleira. Até dezembro de 2022, no Catar, quando ele resolveu, aos 35 anos, calar a acusação da forma mais elegante possível: carregou a Argentina no colo, marcou na final, ergueu a taça e, de quebra, tornou-se o único homem a ganhar duas vezes o prêmio de melhor jogador de um Mundial. O fantasma, enfim, tinha companhia.

Comparar eras é um esporte inútil, eu sei. Pelé venceu três copas, marcou numa final aos 17 anos e foi eleito pela FIFA o atleta do século — proezas que nenhuma planilha de hoje alcança. Jogava em campos pesados, contra zagueiros que tratavam a canela alheia como obstáculo a ser removido. Tinha razão o poeta: era o Rei, e reis não se elegem, nascem. Messi é outra coisa — um plebeu genial que construiu o trono tijolo por tijolo, driblando a própria fragilidade física antes de driblar o adversário.

Pelé foi o milagre que me contaram; Messi foi o milagre que eu vi, com estes olhos que a idade já não deixa mentir. E toda geração tem direito ao seu assombro em tempo real, àquele jogador que faz a gente cutucar o vizinho de arquibancada e dizer "você viu isso?".

O Rei segue sendo o Rei — isso não está em disputa, e quem tentar destronar Pelé vai perder a discussão e o bom senso. Mas se um dia me perguntarem qual foi, na minha vida de admirador do bom futebol, o craque que chegou mais perto daquela grandeza que meu pai me apontou no Machadão, respondo sem gaguejar: o meu Pelé chama-se Messi. Lionel Messi.


 

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