Há partidos que se dividem por ideologia. O PT potiguar se divide por afeto e amizade — que, no fim, dá na mesma coisa.
Hoje são três igrejas sob o mesmo teto, e nenhuma reza pela cartilha da outra.
A primeira é a capela da governadora. Fátima Bezerra tem sua candidata de estimação ao Senado, Samanda Alves, e trata a preferência com a naturalidade de quem escolhe padrinho de batizado. O problema das preferências é que precisam sobreviver às pesquisas — e as pesquisas, essas ingratas, teimam em pôr Samanda atrás de Rafael Motta, do PDT. Pecado imperdoável de Motta: primeiro, não ser do PT; depois, aparecer na frente. No RN petista, as duas ofensas são sempre letais.
A segunda igreja é a que manda no futuro. Natália Bonavides deve desembarcar da disputa com o caminhão de votos que as pesquisas anunciam. E quem chega com caminhão não pede licença para estacionar. É o grupo que tende a herdar a chave do partido quando a governadora deixar a cadeira — e detalhe: já “toma conta” como herdeiro antes do testamento. A "Articulação de Esquerda", que ela lidera no estado, soltou uma nota com duas exigências: entregar a segunda vaga ao Senado ao PSOL, no lugar de Motta, e uma mulher de esquerda na vice. Traduzindo do dialeto petês para o português: fora o aliado incômodo.
A terceira igreja é a mais pobre em fiéis. Fernando Mineiro comanda o grupo mais frágil da legenda e tem contra si o detalhe de ser o único a olhar Rafael com simpatia. Num balaio de vaidades, ter razão sozinho é a definição mais precisa de irrelevância.
E o candidato ao governo?
Cadu Xavier faz as vezes de anfitrião de uma festa que não organizou. Está sem vice — e não por acaso. A vaga estava reservada ao PSDB de Ezequiel Ferreira, que, em vez de embarcar na chapa, preferiu apoiar Álvaro Dias. Não faltou só um aliado; sobrou um adversário. Some-se a isso a ponte que o presidente da Assembleia mantém com os prefeitos do interior, e o tamanho do rombo fica claro. Cadu segue em terceiro, patinando na maioria das pesquisas - refém das conveniências de Fátima, de Natália, de Samanda e de Mineiro, assistindo a tudo sem autonomia sobre a própria candidatura.
Foi então que a capela da governadora teve uma ideia redentora: preencher a vice com Rafael Motta. Reparem no tamanho da encruzilhada. Para a igreja de Natália, Motta é o aliado a ser exorcizado; para a aritmética de Fátima, o salvador a ser abraçado. O mesmo nome que sobra numa ponta é o que falta na outra.
Fátima sondou o ex-deputado: Sugeriu trocar o Senado, onde ele vai bem, pela vice de uma chapa que ainda tenta decolar. Ouviu um sonoro "Não" — e faz todo o sentido. Ninguém abre mão de uma candidatura competitiva para segurar a maca de um terceiro colocado.
Diante de todo esse balaio de interesses e vaidades, o que mais causa estranheza é o silêncio de Fátima.
Observem: não é serenidade, é impotência. Ela quer Samanda no Senado, precisa de Motta na vice e não consegue impor nem uma coisa nem outra. Um governo mal avaliado, que termina de forma melancólica, e uma candidatura a cargo nenhum não dão musculatura para mandar em ninguém. Restou-lhe o silêncio de quem tem preferência, mas perdeu a autoridade de convertê-la em ordem.