Logo 96FM

som+conteúdo

1366x244.gif

Ênio Sinedino


A conta chegou

24737307.jpg

Economia é um assunto chato, difícil de entender. Não é. Só precisa ser contada em português.

No dia 16 de agosto, a Casas Bahia pediu recuperação judicial. Tradução: recuperação judicial é quando a empresa vai ao juiz e diz: "não consigo pagar o que devo, me dê um prazo antes de fechar". É a UTI. Não é o velório.

O tamanho da conta: R$ 17,3 bilhões de dívida, 298 lojas já fechadas, cerca de 3 mil dos 31 mil empregados dispensados. No Rio Grande do Norte são 12 lojas: Natal, Mossoró, Parnamirim, Assú, Macaíba, Pau dos Ferros. Quais sobrevivem, a empresa ainda não disse. Poucos dias antes, o Habib's tinha feito movimento parecido.

Reparem que o barulho só vem quando é de uma marca que todo mundo conhece. Enquanto quem fecha é a loja de material de construção da esquina, a quitanda da sua rua, não sai manchete. Sai um cartaz escrito "aluga-se".

A crise não começou em agosto

Quando a Casas Bahia entrou na fila, já havia 986 lojistas em recuperação judicial no Brasil, 20% a mais do que doze meses antes. Em 2025, o país inteiro bateu recorde: 2.466 empresas pedindo socorro à Justiça, 13% acima de 2024.

O agronegócio, que representava 3% dos pedidos uma década atrás, hoje representa 30%. O mesmo agro que aparece na propaganda como locomotiva do país é hoje o maior cliente da UTI.

Ou seja: não é uma crise só do varejo.

Agora o número que ninguém explica

Preste atenção neste par de dados, porque os dois são verdadeiros ao mesmo tempo.

Dado 1. O desemprego no Brasil está em 5,4%, o menor de toda a série histórica. No Rio Grande do Norte, 5,6%, também recorde. Em Natal, 6,3%. Esse número vai virar peça de campanha antes de outubro, pode anotar.

Dado 2. Entre janeiro e junho deste ano, o Rio Grande do Norte criou 716 empregos com carteira assinada. Setecentos e dezesseis. No mesmo período de 2025 foram 6.744. Em 2024, mais de 13 mil. A queda é de 89%.

Divida com calma: 716 vagas em seis meses dão menos de quatro empregos formais por dia num estado com mais de três milhões de pessoas. Em junho inteiro foram 287. A agropecuária fechou 4.527 postos no semestre; a indústria, outros 1.133.

Como é que o desemprego cai enquanto quase não se cria emprego? Porque a pesquisa conta como "ocupado" praticamente todo mundo que trabalhou por qualquer dinheiro na semana. Quem desistiu de procurar sai da conta. Quem virou MEI, motorista de aplicativo ou vendedor de marmita caseira entra como ocupado. A estatística melhora; a vida, nem sempre.

Desemprego baixo com geração de emprego perto de zero não é pleno emprego. É sala de espera.

O que vem por aí

O resto do quadro qualquer pessoa que paga boleto reconhece sem precisar de gráfico.

Oito em cada dez famílias brasileiras estão endividadas; quase três em cada dez com o nome sujo. As empresas inadimplentes (as que já não conseguem pagar) passam de 9 milhões, devendo R$ 233 bilhões.

E a tal da Selic, segue em 13,75% ao ano. Selic é o preço do dinheiro no país. Quando ela sobe, sobe o juro do cheque especial, do cartão, do empréstimo da padaria para comprar farinha. O Brasil trabalha hoje com um dos dinheiros mais caros do planeta.

As projeções do mercado, publicadas toda semana pelo Banco Central, apontam crescimento de 1,95% neste ano, e vêm encolhendo semana após semana. A inflação deve fechar 2026 perto de 5%, acima da meta. E os juros só devem cair para 12% no fim de 2027.

Nada disso caiu do céu. A dívida das famílias deu o grande salto ainda em 2021. Os pedidos de recuperação judicial explodiram em 2023. O juro dos bancos sobe desde o fim de 2024. Foram cinco anos de aviso e cinco anos de governo — este e o anterior — tratando o assunto como se fosse problema de comunicação, não de economia.

Estamos a cinco semanas da eleição. Vai haver debate sobre segurança pública, saúde, educação, desconstrução de candidatos... Será que vai haver debate sobre por que o Rio Grande do Norte só consegue criar quatro empregos formais por dia?

Aguardem: Durante a campanha alguém vai subir no palanque e comemorar o menor desemprego da história. Estará dizendo a verdade. Só não estará contando a história verdadeira.

Fontes: Serasa Experian, Boletim Focus e CAGED

Deixe o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado