A menos de cem dias do voto, a direita insiste em fazer a pergunta errada.
A certa é simples, e ninguém tem coragem de formulá-la em voz alta: Dá para ganhar de Lula com este candidato?
Há uma diferença elementar entre teimosia e estratégia, e a oposição brasileira parece decidida a não aprendê-la. Os números não são cruéis por maldade. São cruéis por serem números. A Genial/Quaest de julho mostra Lula na frente nos dois cenários, com oito pontos de vantagem no segundo turno — e distância dessas, a esta altura do campeonato, não se vira no grito. Pior: o vento sopra para o lado de quem tem a máquina do Estado, o palanque privilegiado que o cargo oferece de graça e uma base politica que não se abala com escândalo. Lula não precisa ser bom. Precisa apenas ser o titular.
Enquanto Flávio pareceu competitivo, passava tudo: as acusações de rachadinha, que é justo dizer, jamais foram comprovadas; e, agora, a proximidade constrangedora com o banqueiro Daniel Vorcaro e do Banco Master — proximidade que ganhou trilha sonora própria no áudio em que se negociam R$ 134 milhões de patrocinio para um filme sobre o pai. Nada disso incomodava a militância, convencida de que o sobrenome bastaria para levar o senador ao segundo turno como quem sobe de escada rolante.
Pois a escada rolante travou. As pesquisas revelaram, com todas as letras, o que o marketing tentava esconder: Flávio não convence ninguém para além do bolsonarismo raiz. E aqui está o detalhe mais eloquente — ele não consegue unir sequer o campo politico que teoricamente o apoia. A imprensa registra o murmúrio dos aliados, insatisfeitos por motivos que se anulam: para uns, Flávio é bolsonarista demais; para outros, de menos. A confusão chegou a tal ponto que Jair Bolsonaro precisou escrever uma carta reafirmando que o candidato é o filho — gesto que, convenhamos, é o oposto de uma demonstração de força. Ninguém emite comunicado para confirmar o óbvio; emite para conter o incêndio.
E há ainda o incêndio doméstico. Flávio herdou como adversária a própria madrasta. Michelle Bolsonaro resolveu, por razões que só ela conhece, transmitir ao vivo as vísceras da família num reality show de mau gosto em que todos saem perdendo — todos, menos Lula, que assiste da poltrona, sem gastar um centavo de palanque. E ainda estamos em julho.
Talvez nada disso perturbe Jair Bolsonaro. O raciocínio do patriarca é de uma lógica questionável: Ter um Bolsonaro na disputa garante que nenhum outro nome da direita se aposse do espólio, mesmo que Flávio perca a eleição. O sucesso de qualquer concorrente fora do clã significaria devolver a família ao subsolo da política.
E aqui está o ponto que a oposição precisa encarar com a cabeça, e não com o fígado. Jair Bolsonaro é um ativo eleitoral formidável — isso não está em discussão. O que está em discussão é outra coisa: o ativo não é o candidato. Jair não está na cédula, e um ativo não se transfere ao filho por decreto paterno. Por enquanto, segundo as pesquisas, a resposta que as urnas ensaiam a essa transferência é não.
E o tempo, esse eleitor que não aparece nas pesquisas, está passando. A direita menos extremista e o centrão (mais pragmático e mais interessado em governar do que em rezar terços à família Bolsonaro) podem oferecer ao eleitor não apenas alguém que derrote Lula, mas alguém que saiba o que fazer no dia seguinte à vitória, tirando o Brasil do deserto da baixa produtividade, do investimento pífio e da polarização estéril que só serve a quem já está no poder.