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Ênio Sinedino


O vexame argentino

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A Espanha é bicampeã do mundo, e que ninguém se atreva a chamar isso de sorte.

Para chegar à taça, a Roja precisou desmontar, em sequência, as duas últimas campeãs do planeta: passou por cima da França de Mbappé na semifinal e sufocou a Argentina de Messi na final. Foi um futebol exuberante contra as duas maiores forças da era recente. Título merecido, sem asteriscos, sem mão, sem placar de encomenda. Guardem essa frase, porque ela vai ser objeto de outro parágrafo.

Porque enquanto a Espanha jogava bola, a Argentina oferecia um espetáculo de outra natureza — o da falta de civilidade.

Ainda no tempo regulamentar, Enzo Fernández foi expulso por uma entrada violenta em Cubarsí. No apito final, quando ao vice-campeão cabe a tarefa mais simples do futebol, que é perder com elegância, os argentinos preferiram o corpo a corpo: Leandro Paredes partiu para cima de Gavi e Eric García, Molina esmurrou Rodri no meio da festa espanhola, e até um membro da comissão técnica encontrou tempo para agredir Dani Olmo. Incapazes de vencer a Copa com os pés, escolheram disputá-la no braço — trocando a bola pelo soco, e a honra pela vergonha.

O gesto definitivo, porém, veio depois. Na hora da premiação, o elenco argentino inteiro virou as costas para o palco em que a taça era entregue à Espanha. De costas para o adversário, de costas para o troféu, de costas para o mundo. Traduzindo: a Argentina não perdeu apenas a final, ela decidiu não estar presente na própria derrota. É a diferença entre o homem e o moleque — o primeiro aplaude quem foi melhor, o segundo faz beicinho para a arquibancada. 

Sobre o choro de Messi, um parêntese piedoso e outro impiedoso. O piedoso: as lágrimas foram, muito mais pela despedida da camisa argentina, do que pela derrota. E o impiedoso: até uma despedida se faz com classe, e a dele, cercada de socos, pontapés e costas viradas, foi tosca, deselegante, um adeus melancólico em todos os aspectos. O maior jogador de uma geração merecia sair de outro jeito. Os Hermanos que escolheu para o “grand finale”não o ajudaram. Foi humilhante.

Nada disso, é bom dizer, é novidade.

A biografia dourada da seleção argentina tem um número curioso de páginas escritas a lápis. Em 1978, em plena ditadura, um Argentina 6 a 0 sobre o Peru — placar exato de que precisavam para eliminar o Brasil — entrou para a história como a goleada mais suspeita de todas; e não por acaso, foi nesta mesma Copa de 2026 que um ex-jogador peruano veio a público para reabrir a velha confissão de que o jogo teria sido vendido. Em 1986, o caminho para o título veio com um sócio inesperado no ataque contra a Inglaterra pelas quartas de finais - a mão esquerda de Maradona, batizada por ele próprio, com a desconcertante sinceridade, de "la mano de Dios". Na final, venceu a Alemanha por 2 x 1

De 1978 a 2026 há uma linha reta que a Argentina insiste em não enxergar. O total desprezo pelo pudor, pela decência.

No fim, a Copa mede duas coisas distintas. Ao campeão, a taça — e a taça é espanhola, com sobras. Ao vice, algo que não se ergue acima da cabeça nem reluz nas fotos: a grandeza de saber perder. A Espanha levou o troféu para casa. A Argentina deixou no gramado a única coisa que o vice pode salvar de uma final — a sua dignidade.

 

 

 

 

 

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