Há uma forma infalível de medir um desastre administrativo: observar quem se recusa a herdá-lo. Não a oposição, que reclama por ofício, mas o aliado — aquele que foi eleito para sentar na cadeira e preferiu ficar de pé.
Foi o que fez Walter Alves. Vice de Fátima Bezerra, ungido para assumir o Palácio caso a governadora disputasse o Senado. Ele fez o que qualquer pessoa sensata faz antes de assinar um contrato: leu as cláusulas. E resumiu a leitura com a franqueza de quem já nada tinha a perder: "Era uma bomba muito grande. Era uma bomba mesmo." Para que ninguém o acusasse de exagero, terceirizou a autoria do estrago: "Narrativa minha, não. Narrativa do Tesouro Nacional."
Quando o próprio herdeiro devolve a herança, convém abrir o inventário.
O Rio Grande do Norte entrou em 2026 com R$ 3 bilhões negativos em caixa — número que veio do Relatório de Gestão Fiscal enviado ao Tesouro pela própria administração. No mesmo papel, a despesa com pessoal consumiu 56,41% da Receita Corrente Líquida, contra o teto legal de 49%. O estado é hoje o único do país estacionado na casa dos 56% — exclusividade que ninguém disputa.
E há a bomba de efeito retardado: a Previdência, com déficit atuarial de R$ 55,94 bilhões e um aporte mensal de R$ 150 milhões só para manter os aposentados recebendo. Em setembro de 2025, o Tribunal de Contas deu 60 dias úteis para um plano de amortização. O prazo venceu, o plano não veio. Diante de um rombo de quase R$ 56 bilhões, em vez do plano, veio a petição: o Estado preferiu embargar o diagnóstico a enfrentar a doença.
Enquanto isso, os credores batem à porta: a própria Divisão de Precatórios do TJRN registra R$ 354 milhões que o Estado deveria ter pago e não pagou — atraso que a oposição já projeta acima de R$ 400 milhões —, ao lado dos R$ 212 milhões que a FEMURN cobra em repasses devidos aos municípios. E isso é só a mensalidade do atraso: o estoque total de precatórios do RN, segundo o Tesouro Nacional, consome 36,1% da receita, o maior peso do país.
Mas a ironia insuportável está na educação. Um governo liderado por uma professora, de um partido que fez da bandeira educacional o seu batismo, entregou ao estado o pior ensino médio público do Brasil — não uma vez, por acidente, mas duas vezes. E o terceiro pior índice de alfabetização do país, segundo o MEC. As crianças potiguares foram alfabetizadas nas últimas carteiras da fila nacional por quem prometeu colocá-las na primeira.
E na segurança ? Convém rever o otimismo da propaganda oficial de Fátima Bezerra. Enquanto o Brasil reduziu as mortes violentas em 8,2% em 2025, o RN fez o caminho inverso e cravou a maior alta do país, 19,6%, um dos sete únicos estados onde se matou mais (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2026). E aqui os dois números se encontram para formar o retrato completo da realidade: mata-se mais e esclarece-se menos. O estado ostenta o pior índice de elucidação do Brasil (Instituto Sou da paz/Dados 2020-2023) — cerca de 9% dos casos viram denúncia, o último lugar entre 27 unidades da federação.
Chego onde queria.
Quem assumir o Rio Grande do Norte receberá não um governo, mas um espólio — e uma escolha que não admite covardia: fazer a reforma administrativa que ninguém teve coragem de fazer, contrariar corporações. enxugar a máquina, repactuar com os Poderes e dizer “não” a quem está acostumado a ouvir “sim”. Será preciso cortar na própria carne e tomar as medidas impopulares que rendem vaias no momento mas alívio no amanhã.
O próximo governo terá quatro anos e nenhuma desculpa. Se não desarmar a bomba, o Rio Grande do Norte seguirá sendo o que é: uma terra arrasada.