Aconteceu nesta terça-feira uma coisa raríssima: Dois dos maiores jornais do país publicaram, no mesmo dia, editoriais dizendo a mesma coisa. O Estadão escreveu que Alexandre de Moraes não tem mais condições de seguir no Supremo. A Folha apontou a renúncia como a saída mais digna e rápida
O que motivou essa “coincidência” foi a decisão do ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, derrubando o sigilo de um relatório da Polícia Federal sobre a relação entre Moraes e Daniel Vorcaro. O material saiu do celular do banqueiro, apreendido na Operação Compliance Zero.
Primeiro, o dinheiro. Em janeiro de 2024, o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, fechou contrato com o Master: 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, R$ 131,2 milhões em valores brutos. Foram pagos R$ 80,2 milhões até novembro de 2025.
Depois, a digital. Todo arquivo de Word guarda um registro invisível de quem mexeu nele — como uma etiqueta costurada por dentro da roupa. A PF leu a etiqueta dos rascunhos do contrato: a última alteração saiu de um perfil chamado "Ministro Alexandre de Moraes". O escritório não negou o acesso. Disse que o compliance consultou o ministro apenas para checar impedimentos legais.
E por fim, as mensagens. Banqueiro e ministro conversavam por um método curioso: texto escrito no bloco de notas, fotografado e enviado como mensagem de visualização única. Aquela que se apaga depois de lida. Nelas, Vorcaro pede socorro contra o avanço da investigação e menciona precisar de "Paulo" e "Andrei". Para os investigadores, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Dois dias antes de ser preso, pergunta ao ministro se já deveria estar fora do país. E há ainda os cartões de crédito com limite de R$ 300 mil que o banqueiro autorizou para os dois filhos de Moraes.
Antes que alguém grite perseguição: Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça viu ali uma promiscuidade entre poderosos e o poder. Walter Maierovitch, ex-desembargador do TJ-SP, defendeu discutir o afastamento cautelar do ministro. Atentem: Esses senhores não são inimigos do Supremo. São defensores intransigentes da nossa corte suprema.
E agora o ponto que quase ninguém está dizendo em voz alta. Moraes é o atual vice-presidente do STF. Pela tradição de rodízio por antiguidade, em setembro de 2027 ele assume a presidência da Corte — e do Conselho Nacional de Justiça, que fiscaliza todos os juízes do país. Mandato até 2029.
Quem preside o Supremo decide o que entra em pauta e o que fica na gaveta. Um ministro sob investigação já é um problema. Um presidente do Supremo sob investigação é outra categoria de problema: não é mais um homem respondendo por si, é a Corte inteira que vira ré.
Nada disso é sentença. Os próprios juristas lembram que falta saber o que Moraes respondeu e se houve ato concreto em favor do banqueiro. Mas renúncia não é condenação — é o gesto de quem entende que existem cargos onde a suspeita, ainda que não provada, já não cabe. Ninguém é dono da cadeira do Supremo. É depositário dela.
O rei está nu. O que ninguém teve coragem de fazer, até agora, foi tirar a coroa.